Asa de avião recortada contra nuvens e céu azul

123milhas, MaxMilhas e Mil Milhas: vale a pena e e confiavel?

Atualizado em 29 de maio de 2026

Comprar passagem por uma plataforma de milhas costuma sair mais barato que o balcão da companhia aérea. Também é o terreno onde mora um dos maiores casos de prejuízo a consumidores do turismo brasileiro recente. Este guia explica, sem alarmismo e sem propaganda, o que são essas empresas, o que de fato aconteceu com a 123milhas, quais são os riscos reais e por que emitir você mesmo costuma ser o caminho mais transparente.

O que sao essas plataformas

123milhas, MaxMilhas e marcas semelhantes são intermediárias. Elas não são companhias aéreas e, na maioria das vezes, não vendem a sua passagem com o próprio CNPJ na reserva. O modelo clássico funciona assim: pessoas que acumularam milhas em programas de fidelidade (Latam Pass, Smiles, TudoAzul, entre outros) vendem essas milhas pela plataforma; a plataforma usa essas milhas para emitir um bilhete em seu nome; e você paga em reais, normalmente abaixo da tarifa que a companhia cobraria à vista.

É um arranjo legal e, quando tudo corre bem, vantajoso para os três lados. O ponto de atenção é estrutural: existe um intermediário entre você e a companhia aérea. A passagem pode ter sido emitida com milhas de terceiros, em um programa de fidelidade que não é o seu, e o vínculo contratual principal do seu pagamento é com a plataforma, não com a aérea. Isso muda quem responde quando algo dá errado.

Vale separar duas categorias que costumam ser confundidas. De um lado, plataformas que buscam e emitem passagens prontas a preço fechado (o caso histórico da linha promocional da 123milhas). De outro, marketplaces que apenas conectam quem compra e quem vende milhas para emissão imediata. O nível de risco e a clareza sobre quem emite o bilhete variam bastante entre os dois.

O que aconteceu com a 123milhas

A 123milhas é o caso mais documentado e o motivo pelo qual muita gente hoje desconfia do setor. O resumo factual, atribuído às fontes, é o seguinte.

Em agosto de 2023, a empresa anunciou a suspensão das emissões de passagens e pacotes da sua linha promocional de datas flexíveis (a chamada linha Promo), com embarques previstos entre setembro e dezembro daquele ano. Clientes que já haviam pago ficaram sem o bilhete e, em vez de reembolso imediato em dinheiro, foram inicialmente oferecidos vouchers. O episódio gerou milhares de reclamações em poucos dias, segundo cobertura da imprensa e de órgãos de defesa do consumidor.

Ainda em agosto de 2023, o Grupo 123 (que reúne 123milhas, MaxMilhas, a Art Viagens/HotMilhas e outras marcas) entrou com pedido de recuperação judicial. Reportagens e documentos do processo indicam um passivo na casa dos bilhões de reais e centenas de milhares de credores, em sua maioria consumidores. Os números exatos variaram ao longo do processo e seguem sujeitos à habilitação de créditos em juízo, então devem ser lidos como estimativas processuais, não como cifras definitivas.

No campo da responsabilização, em setembro de 2023 a Justiça Federal de Belo Horizonte proibiu os fundadores, os irmãos Ramiro e Augusto Soares Madureira, de deixar o país, medida ligada à convocação deles a uma CPI no Congresso. Posteriormente, em decisão noticiada no fim de 2024, a Justiça de Minas Gerais tornou réus sócios do grupo em ação que apura crimes como fraude, lavagem de dinheiro e infrações contra as relações de consumo. A empresa nega irregularidades e afirma operar normalmente dentro da recuperação judicial. Réu é quem responde a um processo; não há, neste momento, condenação definitiva sobre esses fatos.

Quanto ao status atual: a recuperação judicial seguia em andamento ao longo de 2025 e 2026. O grupo protocolou plano de recuperação com opções de pagamento aos credores e o processo passou por fases de revisão e habilitação de créditos, com previsão de assembleia de credores no decorrer de 2026. Na prática, isso significa que parte dos clientes lesados ainda discutia receber valores, parcelados e com possíveis descontos, conforme a opção escolhida no plano. As condições específicas e os prazos mudam à medida que o processo avança; quem foi afetado deve acompanhar os canais oficiais do processo e, se preciso, o Procon e a Justiça.

Sobre as marcas relacionadas: a MaxMilhas passou a integrar o mesmo grupo da 123milhas após operação de consolidação concluída no fim de 2022, validada pelo Cade, e por isso entrou junto na recuperação judicial. Já Mil Milhas é um nome usado por agências e operadoras menores no mercado e não deve ser confundido com o Grupo 123; é uma marca com presença e documentação públicas bem mais modestas, então qualquer avaliação sobre ela exige checagem caso a caso antes de comprar.

E seguro comprar passagem assim?

A resposta honesta é: depende, e o risco é real mas administrável. Comprar passagem por intermediária não é golpe por definição; milhões de bilhetes são emitidos assim todos os anos sem incidente. O que muda é o perfil de risco. Vale ter clareza sobre três pontos antes de pagar.

  • Risco de intermediário. Se a plataforma quebra ou suspende emissões, como ocorreu em 2023, você vira credor de uma empresa em dificuldade, e não passageiro de uma companhia que vai te levar. Recuperar o dinheiro pode depender de processo judicial e levar anos.
  • Reembolso e cancelamento. Leia como funciona o reembolso antes de comprar. Voucher não é dinheiro de volta. Bilhete emitido com milhas de terceiros pode ter regras de remarcação e cancelamento diferentes das de uma compra direta na aérea.
  • Mudança de regras. A passagem mais barata costuma vir com mais restrições: bagagem, datas, possibilidade de alteração. Confirme em que programa de fidelidade o bilhete foi emitido e se ele aparece corretamente no site da companhia aérea com seu nome e localizador.

Boas práticas de proteção: pague de forma que permita contestação (o cartão de crédito costuma oferecer chargeback), guarde todos os comprovantes, confirme a emissão diretamente no site da companhia aérea logo após a compra e desconfie de preço muito abaixo do mercado para datas concorridas. Se a passagem não aparece na aérea com o seu nome, você não tem passagem.

A alternativa: comprar ou transferir milhas voce mesmo

Existe um caminho que tira o intermediário da equação: usar os programas oficiais e emitir a passagem no seu próprio nome, com o seu próprio cadastro. É mais trabalho, mas é onde você tem mais controle e o vínculo é direto com o programa e com a companhia.

Na prática, há três movimentos. Você pode comprar milhas direto do programa em uma promoção; pode transferir pontos do seu banco ou cartão para o programa aéreo, muitas vezes com bônus que multiplica a quantidade de milhas; e pode juntar milhas com gastos do dia a dia ao longo do tempo. Quando um programa anuncia bônus de transferência, dá para calcular se o negócio vale a pena antes de mover qualquer ponto.

É exatamente esse o trabalho do MilhasBot: mostrar o caminho transparente, com número na mão. Comece pelos materiais abaixo.

Veredito

Plataforma de milhas é uma ferramenta legítima e, muitas vezes, econômica. Não merece ser tratada como vilã nem como solução mágica. O caso 123milhas mostrou o pior cenário do modelo: quando o intermediário falha, quem paga a conta é o consumidor, e a reparação pode demorar anos na Justiça.

  1. Se for usar uma intermediária, prefira emissão imediata, pague no cartão, confirme o bilhete na companhia aérea no mesmo dia e desconfie de preço bom demais para data concorrida.
  2. Evite modelos que cobram com meses de antecedência por uma emissão futura de data flexível. Foi justamente aí que o setor mais machucou consumidores.
  3. Quando der, prefira emitir você mesmo pelos programas oficiais, aproveitando bônus de transferência. Mais controle, vínculo direto, menos pontos de falha.

Em uma frase: a passagem mais barata só é boa quando você consegue embarcar. Antes de decidir pelo preço, decida por quem responde se algo der errado.