Quando alguém me pergunta se é seguro comprar e vender milhas, a resposta honesta começa por separar três coisas que costumam ser confundidas. Comprar milha direto do programa de fidelidade, Smiles, LATAM Pass, Azul Fidelidade, é uma operação oficial: você paga a própria empresa, recebe as milhas na sua conta e emite o bilhete no seu nome. Comprar de um marketplace (que intermedia quem tem milha sobrando e quem quer emitir mais barato) é mais econômico, porém adiciona um intermediário. E comprar uma passagem já emitida por terceiro, fora de qualquer plataforma, é onde mora a maior parte dos golpes. Cada degrau troca um pouco de economia por um pouco de risco, e entender isso já evita a maioria das dores de cabeça.
As plataformas de milhas funcionam, na prática, como agências online: você escolhe o voo, paga e embarca com o mesmo e-ticket emitido pela companhia aérea, sem diferença na experiência de quem comprou no balcão da cia. A plataforma usa milhas de uma base de pessoas para emitir o bilhete em seu nome. As mais conhecidas no Brasil são MaxMilhas, 123Milhas, HotMilhas e FlipMilhas. O modelo é legítimo e muita gente viaja assim todo mês, o ponto sensível, e por isso este guia existe, é a saúde financeira e a reputação de cada operador, que mudaram bastante nos últimos anos.
O caso que abalou o setor foi o da 123Milhas. Em agosto de 2023, a empresa suspendeu sua linha promocional (o pacote Promo) alegando condições adversas de mercado, deixou centenas de milhares de clientes sem a viagem que já tinham pago e entrou em recuperação judicial, com dívidas na casa dos bilhões. É importante registrar o que mudou desde então, porque o cenário de 2026 não é o de 2023. A 123Milhas, a MaxMilhas e a HotMilhas passaram a integrar o mesmo grupo (a fusão MaxMilhas e 123Milhas foi anunciada e as marcas ficaram sob o mesmo controle), e todas estão dentro do mesmo processo de recuperação. As empresas seguem operando e vendendo passagens em 2026, e relatam ter transportado milhões de passageiros desde o pedido de recuperação.
O que considero fato verificado, e não opinião: em fevereiro de 2026 o processo entrou na fase de propostas de acordo, com mensagens enviadas a cerca de 800 mil credores oferecendo opções de pagamento, algumas com deságio elevado, parcelamento longo (chegando a anos) ou crédito em forma de cashback para novas compras. A assembleia geral de credores ainda não tinha data fechada e a expectativa era que ocorresse no segundo semestre. Ou seja: a dívida com quem foi lesado em 2023 ainda está sendo equacionada. No Reclame Aqui, as notas recentes melhoraram, mas o histórico de cancelamentos e reembolsos travados continua pesando. Não afirmo que a empresa é golpe, seria injusto e impreciso; relato que está em recuperação judicial, com obrigações em aberto, e por isso recomendo cautela e leitura atenta das condições antes de comprar.
No outro extremo de segurança está comprar milha direto do programa. Smiles, LATAM Pass e Azul abrem promoções de compra de milhas com frequência, às vezes com desconto grande sobre o preço de balcão (que gira em torno de R$ 70 a R$ 80 por mil milhas). A pergunta certa não é só se está barato, mas se o milheiro sai abaixo do que essas milhas valem para o destino que eu quero. Por isso recomendo sempre passar a oferta pela nossa calculadora do milheiro antes de fechar. Se você quer entender o passo a passo de cada caminho, direto, transferência bonificada ou marketplace, escrevi um guia dedicado em como comprar milhas.
Os golpes seguem um padrão reconhecível, e o mais perigoso envolve cartão ou milhas de terceiros. Funciona assim: alguém oferece uma passagem emitida muito abaixo do preço; o bilhete foi pago com um cartão clonado, uma conta de milhas invadida ou um CPF que não é o seu. Quando a fraude é detectada, a companhia faz o chargeback e cancela o bilhete, e isso pode acontecer dias depois ou, no pior caso, na hora do embarque, com você no aeroporto. Os sinais de alerta são consistentes: preço bom demais, negociação por WhatsApp ou Instagram com desconhecido, pagamento por fora (Pix para pessoa física, depósito em conta cujo titular não bate com o CNPJ), pressa artificial e ausência de CNPJ ou de canal oficial.
A proteção mais simples e poderosa é esta: depois de comprar, confirme o bilhete diretamente no site ou app da companhia aérea, com o localizador, e veja se a reserva está emitida e em seu nome e CPF. Se a passagem só existe no print que o vendedor mandou, desconfie. Pague sempre dentro da plataforma, de preferência no cartão (que dá rastreabilidade e direito de contestação), nunca por transferência avulsa para terceiros. E proteja a sua própria conta de milhas: senha forte e exclusiva, verificação em duas etapas e desconfiança total de quem pede seu login, invasão de conta de programa de fidelidade para drenar milhas é um golpe real e comum.
Quem nunca vendeu milhas me pergunta por onde começar com segurança. Recomendo plataformas com CNPJ ativo e cadastro no Cadastur (registro do Ministério do Turismo), reputação verificável no Reclame Aqui e regras claras de repasse. Nunca entregue login e senha da sua conta do programa a intermediário nenhum. E há o lado tributário, que muita gente ignora: a venda de milhas é, para a Receita, ganho de capital. Pela regra geral de bens de pequeno valor, vendas cujo preço de alienação no mês seja de até R$ 35 mil tendem a ser isentas (declaradas em Rendimentos Isentos); acima disso, o lucro é tributado por ganho de capital a partir de 15%, apurado no programa GCAP e pago no mês seguinte. As milhas que você apenas acumulou e não vendeu não geram imposto. Como esse é um ponto que muda e comporta interpretação, confirme a sua situação com um contador, leia também o nosso guia de como vender milhas.
Meu veredito honesto: comprar e vender milhas pode ser seguro, e milhões de brasileiros fazem isso sem problema. O segredo é escolher o canal certo para o seu apetite de risco, direto no programa quando quer máxima tranquilidade, marketplace reputável quando busca economia e aceita um intermediário, e nunca passagem solta de desconhecido. Acompanhe o noticiário das plataformas (o caso do Grupo 123 mostra que a situação de uma empresa muda), confirme cada emissão com a companhia aérea e trate qualquer oferta milagrosa como o que ela quase sempre é. Com esse cuidado, milha vira ferramenta de viagem barata, não armadilha. Veja também os programas de milhas e a calculadora do milheiro.
Perguntas frequentes
É confiável comprar passagem de marketplace de milhas?
Pode ser, desde que você use plataforma reputável e com CNPJ, pague dentro do site e confirme a emissão direto com a companhia aérea. O modelo é legítimo, você embarca com o e-ticket da própria cia. O risco maior não está no marketplace em si, mas em comprar passagem emitida por terceiro fora de qualquer plataforma. Avalie sempre a saúde financeira e a reputação atual do operador antes de fechar, porque isso muda com o tempo.
A 123Milhas voltou a funcionar em 2026?
A 123Milhas segue operando e vendendo passagens em 2026, mas continua em recuperação judicial aberta desde agosto de 2023, junto com MaxMilhas e HotMilhas (mesmo grupo). Em fevereiro de 2026 o processo entrou na fase de propostas de acordo a cerca de 800 mil credores, com a assembleia geral ainda sem data definida. Em resumo: está funcionando, mas a dívida com clientes lesados em 2023 ainda está sendo negociada. Recomendo cautela e leitura das condições.
A MaxMilhas é segura?
A MaxMilhas é uma plataforma estabelecida e que segue operando, porém se uniu à 123Milhas e faz parte do mesmo grupo em recuperação judicial. Isso não significa que toda compra dará errado, muita gente viaja normalmente, mas é um fator de risco que não existe ao comprar direto do programa. Se for usar, pague dentro da plataforma, guarde os comprovantes e confirme o bilhete no site da companhia aérea. Acompanhe o noticiário, porque a situação financeira do grupo pode evoluir.
Como não cair em golpe ao comprar milhas ou passagem?
Desconfie de preço bom demais, recuse negociação por WhatsApp ou Instagram com desconhecido e nunca pague por fora (Pix para pessoa física, conta cujo titular não bate com o CNPJ). Compre sempre dentro de plataforma com CNPJ, de preferência no cartão. O passo decisivo: depois de pagar, confirme o localizador direto no site da companhia aérea e veja se o bilhete está emitido no seu nome e CPF. Passagem paga com cartão ou milha de terceiro pode sofrer chargeback e ser cancelada até no embarque.
Preciso pagar imposto ao vender milhas?
A venda de milhas é tratada como ganho de capital pela Receita. Pela regra de bens de pequeno valor, vendas cujo preço de alienação no mês seja de até R$ 35 mil costumam ser isentas (informadas em Rendimentos Isentos); acima disso, o lucro é tributado a partir de 15%, apurado no GCAP e pago no mês seguinte. Milhas apenas acumuladas, sem venda, não geram imposto. Como a regra é técnica e muda, confirme a sua situação com um contador para não correr risco de multa.
Comprar milha vale a pena?
Vale quando o custo do milheiro sai abaixo do que essas milhas valem para o destino que você quer voar, e não apenas quando está em promoção. O preço de balcão fica em torno de R$ 70 a R$ 80 por mil milhas, mas promoções de compra direta no programa derrubam bastante esse valor. Antes de comprar, passe a oferta pela calculadora do milheiro e compare com o preço da passagem em dinheiro. Para trechos caros (executiva, internacional), comprar milha costuma compensar mais do que para voos domésticos baratos.